Total de taxas pagas pelos Bracarenses ao Município em 2022 (até ao momento)

NAVEGAÇÃO À VISTA

De surpresa em surpresa, Christine Lagarde lá tem andado a dar a cara pela política monetária do Banco Central Europeu. Lembremo-nos que há dez anos, o seu antecessor violou uma das regras sagradas da independência de um Banco Central – a monetização da dívida pública – ao iniciar a compra da dívida dos estados que não estavam a conseguir financiar-se a juros comportáveis. Sempre que isso aconteceu na história da humanidade, o efeito foi, invariavelmente, a inflação.

Mas a nossa inflação não começou há dez anos. Aliás, os preços comportaram-se muito bem até sensivelmente o Verão do ano passado. Só nessa altura é que começaram a dar sinais de que alguma coisa não estava bem. Sim, inteiramente verdade, pois o BCE não monetizou a dívida pública de todos os estados, e nem sequer a totalidade da dívida pública de alguns estados. Pelo que estas compras de títulos que injectaram dinheiro na economia europeia, conseguiram ir sendo acomodadas.

Pelo gráfico, até podemos ver que entre Janeiro e Setembro de 2019, o BCE inverteu a política que tinha vindo a seguir, já vendeu mais dívida do que comprou. No entanto, em Outubro de 2019, a situação retoma a tendência anterior, com mais compra de títulos e a consequente injecção de dinheiro na Zona Euro.

Infelizmente, o confinamento da Europa e do resto do Mundo, levou a quebras acentuadas na actividade, e como o dinheiro não parava de crescer, começava a sobrar relativamente ao PIB.

Se até 2019 a proporção de dinheiro e preços do PIB se manteve, em 2020 vemos um salto enorme, chegando a ultrapassar 18 pontos percentuais. Foi criado um excedente de dinheiro que, se não viesse a ser compensado por um crescimento da actividade ou não viesse a ser retirado da economia, teria de reflectir-se em inflação.

Sim, em 2020! Quando não havia guerra nenhuma!

E este excedente começou a formar-se no final de 2019 com a retoma da compra de activos por parte do BCE.

Portanto, estas linhas azul e vermelha vão voltar a encontrar-se; ou porque a quantidade de moeda relativamente ao PIB vai diminuir, ou porque os preços vão crescer.

Claro que se esperava que as economias pudessem vir a recuperar após a pandemia de forma a absorver uma parte deste excedente. Mas eis que surge uma guerra que vem trocar as voltas a estas boas intenções. Se havia dúvidas quanto à capacidade de o PIB poder vir a compensar este excesso de liquidez, elas acabaram. Isso não vai acontecer.

Então o que nos resta para evitar que os preços dispararem? Reduzir a quantidade de dinheiro. O que só é possível com um aumento das taxas de juro. É isso que tem vindo a acontecer no nosso grande parceiro, os Estados Unidos. A diferença entre as taxas de juro entre a Zona Euro e os Estados Unidos tem sido habitual nos últimos anos.

No entanto, o valor do Euro tem-se conseguido aguentar, pois a Balança da Pagamentos tem apresentado excedentes na Zona Euro e défices nos EUA. Mas agora, com uma tão grande diferença nas taxas de juro, o Dólar tem vindo a tornar-se muito mais apetecível para aplicar capitais. A consequência é uma depreciação do Euro face ao Dólar.

E então? Isso é algum problema?

Numa altura de alta dos preços das commodities, estando estas principalmente cotadas em dólares, sim, é um problema. Se o dólar fica mais caro, as commodities também ficam mais caras. O preço dos produtos energéticos tem disparado em dólares, e isso vai ser ainda multiplicado pela perda de valor do Euro. O mesmo acontecendo com muitas outras matérias-primas.

No final de 2021, Christine Lagarde, a presidente do Banco Central Europeu, veio afirmar que “estamos num universo diferente dos Estado Unidos e do Reino Unido”, referindo-se ao fim dos estímulos da política monetária destes dois países; mas que “BCE não irá hesitar quando chegar o momento de subir as taxas de juro.” Um mês depois, em Janeiro deste ano, reforçou o compromisso da estabilidade de preços, afirmando que o pico da inflação tinha ficado em Dezembro; mas logo a seguir, em Fevereiro, mostrou-se surpreendida com a inflação, afirmando que deverá manter-se alta durante mais tempo do que o previsto; apesar disso, nessa mesma altura, continuava a afirmar que os juros não iriam subir. Em Março, nova tomada de posição, com a referência à retirada de estímulos à economia e subida de juros: afinal, os estímulos monetários têm de acabar e os juros têm de subir “até ao fim do ano”. Mas neste mês de Maio admitiu que a compra de dívida por parte do BCE irá continuar durante mais dois ou três meses. Há dias, referiu que a subida das taxas de juro pode acontecer já em Julho.

Quando viajamos em piloto automático, qualquer um serve para estar no comando. É nos momentos difíceis que um líder aparece. Um líder, tem uma atitude pró-activa na resolução e na mitigação dos problemas. Um líder não pode denunciar uma reacção de surpresa e ficar impávido e sereno à espera de um milagre. Porque esses, acabaram há mais de dois mil anos.

Navegação à vista? Infelizmente, nem isso, pois para além de completamente “desnorteada”, a “mulher do leme” não sabe sequer qual o destino da nossa viagem.

 

Notas:
ABSPP: Asset-Backed Securities Purchase Programme

CBPP: Covered Bond Purchase Programme

CSPP: Corporate Sector Purchase Programme

PSPP: Public Sector Purchase Programme

Taxas de juro interbancárias a 90 dias

O referido saldo da Balança de Pagamentos, diz respeito ao saldo da Balança Corrente

 

Mário  Joel Queirós, Docente do Ensino Superior nas áreas de Economia e Finanças,

 in PublicoLynk

26/05/2022

 

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