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Uma questão de liberdade ou porque é que esta guerra é mesmo diferente

Isto não implica que a democracia ucraniana ou Zelenskii sejam perfeitos, como não eram Churchill ou Luther-King, mas apenas que estão a lutar por valores que a maioria dos ocidentais partilha e sente estarem em perigo.

Quando eclodiu a guerra na Ucrânia, fiquei com a ideia de que todos perceberiam a relevância do momento que vivíamos, uma viragem para uma nova era. Mas, após um mês de guerra, depois de ler muito do que se tem escrito na comunicação

social, fico com dúvidas. Não me refiro à reação de parte da esquerda nacional que anda tanto em contramão com o mundo atual que parece achar que Putin, o rei dos oligarcas, é um digno representante dos valores comunistas da ex-URSS. Isto nem vale a pena comentar! Mas outros pensadores que aprendi a respeitar têm também relativizado a importância desta guerra em relação a outros conflitos recentes.

Parece-me que temos um dilema entre valores e uma perceção daquilo que pode ser o protótipo de uma ordem internacional mais justa. Comecemos por esta última parte. Muitos têm referido que nada distingue esta guerra de muitas outras no direito e na ordem internacionais. Claro que há razões para esta opinião e não as nego. É verdade que tivemos dezenas de guerras nas últimas décadas, muitas ainda a decorrer e muitas condenáveis do ponto de vista do enquadramento internacional. Tivemos guerras que mataram muitos inocentes, incluindo crianças, cidades bombardeadas e até cidades completamente removidas do mapa (bem, aqui a Rússia tem sem dúvida o papel mais relevante, com os exemplos de Alepo ou Grozny), tivemos crimes de guerra e até Estados a invadir outros Estados independentes com razões puramente inventadas pelos invasores (sim, e o Iraque é um dos exemplos)! Tudo isto é obviamente condenável e não é aqui que esta guerra se distingue!

Mas, permitam-me dizer, esta guerra é mesmo diferente de todas as outras que temos tido nas últimas décadas.

Em relação à empatia da opinião pública, diz-se que estamos a endeusar os ucranianos e o seu presidente de forma algo irracional. Claro que, quando se fala de opinião pública, há sempre alguma irracionalidade... Na vida tudo é relativo: a morte de um ente querido nunca será semelhante à morte de um desconhecido, tal como a guerra contra um povo de que estamos próximos (a Ucrânia era já uma das principais comunidades de imigrantes em Portugal e é um país europeu) nunca será igual à guerra contra um povo mais distante. Basta vermos a mobilização nacional na questão de Timor Leste... e a quase indiferença de muitos dos nossos vizinhos na UE. Seria irrealista pedir que a opinião pública e a comunicação social conseguissem ser completamente indiferentes a isto e 100% neutrais ou isentas, ainda por cima com toda a indiferença pela morte de civis que tem sido demonstrada neste conflito e a cobertura globalizada em todos os meios de comunicação e redes sociais.

Mas há outras razões mais relevantes para que esta guerra seja única e tenha desde o primeiro dia merecido a empatia de muitos nos países ocidentais com democracias liberais.

Desde a Segunda Guerra Mundial que não tinha havido uma guerra contra um Estado independente e democrático, por parte de outro Estado (neste caso um estado não democrático), e com o objetivo claro de limitar a sua liberdade. Se olharmos para a história, isto muito raramente aconteceu... E o último exemplo, o mais paradigmático, serão as invasões de Hitler na II Guerra Mundial sobre estados democráticos europeus. Assim, não admira que muitos vejam na Guerra da Ucrânia muitas semelhanças com esta guerra, pois foi o último exemplo de um ataque militar direto à liberdade de um povo. Não é surpreendente que muitos sintam que os ucranianos estão a travar a luta de todos nós pela liberdade, até porque há razões fundamentadas para achar que Putin não quererá ficar por aqui.

Tudo isto não implica, ao contrário do que muitos apregoam, que a democracia ucraniana fosse perfeita ou que Zelenskii seja o homem ou o político perfeito, mas apenas que eles estão a lutar por valores que a maioria dos ocidentais partilham e que todos sentimos que estão em perigo e precisam ser defendidos. Churchill ou Luther-King não foram homens perfeitos, mas todos sabemos a aura que adquiriram, exatamente pelo papel e pela coragem que tiveram na defesa daquilo que muitos achavam que eram valores inegociáveis.

Em muito do que se lê sobre esta guerra, parece sobressair um debate dos mais antigos na nossa história, entre dois valores dos que todos mais prezamos: a paz e a liberdade. Muitos parecem defender que talvez possamos abdicar em alguns casos do segundo (claro que não aqui no seu quintal, mas no quintal dos outros) para ter o primeiro. E que o melhor era a Ucrânia ceder e negociar com Putin a sua alma, o seu território, a sua liberdade de escolha, em troca da paz. Até porque do outro lado está alguém que pode carregar no botão...

Eu e muitos outros, com toda a certeza, continuamos a defender que teremos sempre que lutar pela liberdade, o princípio número 1, sem cedências, mesmo que em algumas circunstâncias se possa ter que perder a paz por algum tempo. Chamem-me ingénuo, aceito. Mas só assim foi possível derrotar Hitler! E estando perto da altura do ano em que comemoramos o 25 de abril, ainda bem que há 48 anos tivemos militares que não tiveram medo de arriscar e lutaram pela liberdade em que acreditavam como seu primeiro princípio!

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

Professor da Universidade do Minho; dirigente da Iniciativa Liberal

 

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30 Mar 2022

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